Muito ouvi falar do arco que enfureceu os fãs do aracnídeo nos Estados Unidos e que causou um grande desentendimento entre J. Michael Straczynski, escritor, e Joe Quesada, ilustrador e Editor-Chefe da Marvel. Pois ontem à noite baixei os scans e li as quatro partes de One More Day.
Antes de mais nada, preciso confessar: eu gostei. Assim como havia gostado de Pecados Pretéritos, outro arco odiado pelos fãs, que não digeriram bem a história dos filhos de Gwen Stacy, cujo pai era ninguém mais, ninguém menos que… Norman Osborne. Pois é.
Acontece que, como história isolada, One More Day é muito boa. Mesmo. Strackzynski a escreve muito bem, enquanto Quesada desenha como se há anos esperasse pela oportunidade de contá-la – o que, em parte, é verdade, visto que o todo-poderoso da editora já havia dito, mais de uma vez, que achava o casamento de Peter com M.J. um grande equivoco.

“O que você faria… se tivesse apenas… mais um dia?” pergunta a capa de The Amazing Spider-Man #544. Tia May está no hospital, vítima de um tiro destinado a Peter, por um assassino enviado pelo Rei do Crime. Pra quem (como eu) já sabe o que vem pela frente, é fácil perceber, desde o início, as pistas deixadas por Strackzynski e Quesada.
“Eu daria qualquer coisa, faria qualquer coisa para trazê-la de volta” pensa nosso desesperado herói. “Eu encontrarei um jeito de salvar tia May nem que isso signifique atacar os portões do inferno eu mesmo” promete Peter, depois de lutar com Tony Stark e partir para a mansão de Stephen Strange, em busca de uma solução fantástica (no sentido literal da palavra) para a situação.
Entra em campo, então, uma menininha ruiva que promete ajudar nosso herói – e se tu não descobriu de cara quem ela é… francamente. Atordoado, Peter a segue e encontra outro personagem misterioso – e se tu também não descobriu de cara quem ele é… francamente! A jornada prossegue, e entra em campo um terceiro personagem misterioso – e se tu não descobriu de cara quem ele é… fala sério!, esse é o primeiro gibi que tu tá lendo, é?

Acha que acabou? Ainda há tempo para mais um personagem misterioso, dessa vez uma mulher. E é ela quem trata de apresentar a Peter quem ele acabou de conhecer: versões suas de vidas possíveis. Em uma delas, ele se afasta da sociedade e vai viver suas fantasias desenhando jogos para videogames, quando pode extravasar seu ressentimento. Em outra, ele se torna milionário quando parte em busca de reconhecimento, para esfregar seu sucesso na cara de seus ex-colegas. Em ambas, Peter não é picado pela aranha radioativa.
Então, o último personagem se revela e a mulher se transforma em Mefisto, o senhor das trevas – e, francamente, só vai se surpreender quem não entendeu as dicas das edições anteriores (lembra?).
Pois Mefisto se revela prometendo salvar a vida da tia May. “E, em troca, você quer minha alma, é isso?” pergunta um desafiador Peter. “Nao”, responde o capeta. “Eu quero seu amor… eu quero seu casamento.”
(Sim, isso mesmo. Quesada encarnou o próprio demo pra colocar um fim naquilo que acreditava ser uma grande cagada na cronologia do herói.)

Em troca da vida tia May, Mefisto exige que Peter abra mão de sua vida com Mary Jane. E dá, ao casal, somente mais um dia para que ele(s) tome(m) sua decisão. “Você não lembrará dessa barganha… Mas haverá uma parte de sua alma que saberá o que você perdeu… e minha alegria será ouvi-la gritando através da eternidade…”
Sim, que horror.
Horror mesmo, mas Quesada, o mentor do arco, fez questão de pensar em tudo. Porque, mesmo quando Peter e M.J. se questionam sobre se essa, enfim, não seria a hora da tia May, nosso herói faz questão de dizer que nunca se perdoaria por ela ter levado o tiro em seu lugar. Que não poderia conviver com o fato de que ela morrera por sua causa (assim como o tio Ben e Gwen Stacy).
A partir de então, o que poderia virar uma bobagem sem fim se transforma em uma das mais emocionantes histórias do Homem-Aranha em todos os tempos. E aí a dupla dá um show.
Toda a seqüência em que Mary Jane e Peter passam a noite juntos, abraçados, pensando no que fazer, é memorável (e há um quadro, ou página, particularmente, que ficará na memória por muito, muito tempo). A arte de Quesada está digna de reverência. O texto (ou a falta dele) de Strackzynski está impecável. E o resultado é de alto nivel.

“Seja o herói” diz ela.
“Faça” diz ele.
E pronto. Está feito. Não sem antes uma dose extra de sofrimento, quando Mefisto revela que a garotinha nada mais era que a filha do casal que nunca existirá, pois, daquele momento em diante, Peter renunciou à sua vida com M.J. para salvar a pessoa que mais ama no mundo.
Ainda há tempo de uma última participação da ruiva, em mais um momento brilhante de Strackzynski: “eu sei, em meu coração, que você e eu sempre fomos feitos para ficarmos juntos… Nós vamos achar um ao outro novamente, e nós ficaremos juntos novamente”. Realmente, um final muito bonito para uma história muito bacana, e é difícil não se emocionar com a leitura.

E é assim que voltamos ao tempo em que Peter Parker morava com a tia May, era colega de Flash Thompson e Harry Osborne estava vivo (pois é). Francamente, há uma série de motivos para odiar Onde More Day e, pricipalmente, Joe Quesada. Mas a reformulação na vida do Homem-Aranha abre tantas possibilidades, que o jeito é aproveitar essa que, sem dúvida, é uma das grandes histórias do herói.
Aproveitar, e saudar um grande novo dia.
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O QUÊ: One More Day
COTAÇÃO: interessante
ONDE: em scans, baixada da internet

